Encontrei com o passado. Ele estava me olhando escondido, com a maior cara de futuro. Ele me deu um presente que ainda não sei usar e agora está comigo, me encarando, pelo resto dos meus dias.
Comentário: ando meio sumido, eu sei. Mas é porque fica meio complicado escrever com o passado me encarando assim.
11/08/2010
28/07/2010
Um, Dois e Três
Na cidade de Intuição, no mesmo prédio, moravam as pessoas Um, Dois e Três. Na mesma manhã de domingo, dia que não tinham nenhuma atividade importante na agenda, tiveram o mesmo sentimento estranho: deveriam sair de casa.
Um era metódico. Todos os livros da sua coleção estavam em ordem alfabética, assim como os CDs e DVDs. Planejava com antecedência a programação para o fim de semana, dormia e acordava sempre no mesmo horário e na sua vida só cultivava hábitos que considerava seguros. Só bebia água em goles pares, só comia biscoitos de uma determinada marca. Tudo era entediante, mas seguro. Não saiu de casa. Continuou na mesma rotina diária e se apressou. Era hora de preparar o almoço que comia há 20 anos: bife de boi, couve, arroz, feijão, tomate, alface e cenoura. Sempre sozinho, um solteiro acomodado.
Dois era um homem sem planos. Transitou entre diversas atividades profissionais e quando era mais novo adorava mudar de escola, só pelo prazer em encontrar o desconhecido. Não sabia o que era rotina e sentia falta do amor. Seu sonho era ter uma vida, uma vida a dois.
Três era uma pessoa normal, mas naturalmente afobada. Nos momentos mais importantes acabava fazendo tudo errado. De cabelos desgrenhados e personalidade difícil, vivia sozinho porque sempre que tinha a oportunidade de conhecer melhor alguém interessante se afobava e tropeçava nas próprias palavras. Era sozinho.
Na porta do prédio estava sentada uma mulher, Quatro. Depois de caminhar durante a manhã estava cansada. Sentou se no meio fio e tomava uma água de coco para se refrescar. Algo dizia que deveria parar e descansar. Era a mulher da vida de três homens: Um, Dois e Três.
Um ficou em casa e permaneceu mais quarenta anos na mesma rotina. Sozinho, tomando água em goles pares e sem conhecer novos sabores. Mas ele era assim, um cara singular.
Dois, ao sentir que deveria sair, aproveitou para dar uma volta. Trocou de roupa, desceu a escada e encontrou uma mulher que valia por duas. Dois e quatro se casaram e tiveram seis filhos.
Três ficou afobado. Vestiu a camisa do lado avesso, entrou no carro, ligou o ar condicionado e ligou a ignição. Encontrou, sentada no meio fio, uma mulher linda. Trocaram olhares e sorriram. Pensou em descer do carro, mas percebeu que a blusa estava do lado avesso. Assustado, com vergonha e afobado continuou andando e ficou sozinho. Pensou que não precisava de um par, era ímpar.
Um era metódico. Todos os livros da sua coleção estavam em ordem alfabética, assim como os CDs e DVDs. Planejava com antecedência a programação para o fim de semana, dormia e acordava sempre no mesmo horário e na sua vida só cultivava hábitos que considerava seguros. Só bebia água em goles pares, só comia biscoitos de uma determinada marca. Tudo era entediante, mas seguro. Não saiu de casa. Continuou na mesma rotina diária e se apressou. Era hora de preparar o almoço que comia há 20 anos: bife de boi, couve, arroz, feijão, tomate, alface e cenoura. Sempre sozinho, um solteiro acomodado.
Dois era um homem sem planos. Transitou entre diversas atividades profissionais e quando era mais novo adorava mudar de escola, só pelo prazer em encontrar o desconhecido. Não sabia o que era rotina e sentia falta do amor. Seu sonho era ter uma vida, uma vida a dois.
Três era uma pessoa normal, mas naturalmente afobada. Nos momentos mais importantes acabava fazendo tudo errado. De cabelos desgrenhados e personalidade difícil, vivia sozinho porque sempre que tinha a oportunidade de conhecer melhor alguém interessante se afobava e tropeçava nas próprias palavras. Era sozinho.
Na porta do prédio estava sentada uma mulher, Quatro. Depois de caminhar durante a manhã estava cansada. Sentou se no meio fio e tomava uma água de coco para se refrescar. Algo dizia que deveria parar e descansar. Era a mulher da vida de três homens: Um, Dois e Três.
Um ficou em casa e permaneceu mais quarenta anos na mesma rotina. Sozinho, tomando água em goles pares e sem conhecer novos sabores. Mas ele era assim, um cara singular.
Dois, ao sentir que deveria sair, aproveitou para dar uma volta. Trocou de roupa, desceu a escada e encontrou uma mulher que valia por duas. Dois e quatro se casaram e tiveram seis filhos.
Três ficou afobado. Vestiu a camisa do lado avesso, entrou no carro, ligou o ar condicionado e ligou a ignição. Encontrou, sentada no meio fio, uma mulher linda. Trocaram olhares e sorriram. Pensou em descer do carro, mas percebeu que a blusa estava do lado avesso. Assustado, com vergonha e afobado continuou andando e ficou sozinho. Pensou que não precisava de um par, era ímpar.
Como vai o seu cu? ( Parte III/III)
21:30. Devidamente internado, faria a cirurgia em poucos minutos. Tomei alguns anestésicos e fui encaminhado para a sala de cirurgia. No caminho, uma enfermeira.
- Vamos tirar a roupa?
- Quem começa, você ou eu?
O bom humor é necessário, até nos momentos trágicos. Quando você está no inferno e sabe que vai abraçar o capeta, aproveite e dê uma apertada na bunda dele também, só pra descontrair.
Tirei a roupa e fiquei deitado em uma gelada mesa de cirurgia. Tomei a anestesia e pedi- na verdade implorei - para ficar desacordado. Solicitei a maior dose possível de calmantes, afinal, se alguém for cutucar a minha bunda, que eu tenha a desculpa eterna que não estava acordado. Pelo menos assim meu orgulho masculino fica intacto.
Apaguei...
..
.
Acordei, ainda pelado, sendo levado de maca para o quarto. Parecia uma galinha. Na minha bunda inteira vários esparadrapos por toda parte e muita gaze enfiada no meu fiofó. Meio desacordado cheguei ao quarto, onde ficaria até o dia seguinte, em observação. Mesmo com os membros inferiores anestesiados ainda tentei deitar de bruços, a posição até hoje mais confortável para dormir.
Deitei, mas aparentemente tinha me apoioado em cima do cobertor dobrado. Virei de lado para tirar o objeto estranho e quando vi, ah, meu deus!! O objeto estranho era meu próprio pênis, acuado e anestesiado. Necrose do escroto??? Toquei desesperadamente a campainha para que uma enfermeira viesse me atender.
A mesma responsável pela enfermagem que outrora havia me despido apareceu. Expliquei a situação para ela, que calmamente sugeriu que eu dormisse, contou que não era nenhum tipo de necrose, somente anestesia. Dormi preocupado, mas dormi.
No dia seguinte a alta, banhos de assento em permanganato de potássio, pus, sangue e gaze. A recuperação foi demorada e chata, mas agora aqui estou, com um cu perfeito e sorridente. Pelo menos uma certeza ficou dessa experiência. Meu cu é importante e deve ser respeitado e cuidado como tal.Exame de próstata? Moleza. Quando eu precisar já não terei mais medo. Pior não vai ser.
Comentário: obrigado, queridos seguidores que, com paciência, acompanharam o término da história. Continuem lendo, comentando e seguindo.
- Vamos tirar a roupa?
- Quem começa, você ou eu?
O bom humor é necessário, até nos momentos trágicos. Quando você está no inferno e sabe que vai abraçar o capeta, aproveite e dê uma apertada na bunda dele também, só pra descontrair.
Tirei a roupa e fiquei deitado em uma gelada mesa de cirurgia. Tomei a anestesia e pedi- na verdade implorei - para ficar desacordado. Solicitei a maior dose possível de calmantes, afinal, se alguém for cutucar a minha bunda, que eu tenha a desculpa eterna que não estava acordado. Pelo menos assim meu orgulho masculino fica intacto.
Apaguei...
..
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Acordei, ainda pelado, sendo levado de maca para o quarto. Parecia uma galinha. Na minha bunda inteira vários esparadrapos por toda parte e muita gaze enfiada no meu fiofó. Meio desacordado cheguei ao quarto, onde ficaria até o dia seguinte, em observação. Mesmo com os membros inferiores anestesiados ainda tentei deitar de bruços, a posição até hoje mais confortável para dormir.
Deitei, mas aparentemente tinha me apoioado em cima do cobertor dobrado. Virei de lado para tirar o objeto estranho e quando vi, ah, meu deus!! O objeto estranho era meu próprio pênis, acuado e anestesiado. Necrose do escroto??? Toquei desesperadamente a campainha para que uma enfermeira viesse me atender.
A mesma responsável pela enfermagem que outrora havia me despido apareceu. Expliquei a situação para ela, que calmamente sugeriu que eu dormisse, contou que não era nenhum tipo de necrose, somente anestesia. Dormi preocupado, mas dormi.
No dia seguinte a alta, banhos de assento em permanganato de potássio, pus, sangue e gaze. A recuperação foi demorada e chata, mas agora aqui estou, com um cu perfeito e sorridente. Pelo menos uma certeza ficou dessa experiência. Meu cu é importante e deve ser respeitado e cuidado como tal.Exame de próstata? Moleza. Quando eu precisar já não terei mais medo. Pior não vai ser.
Comentário: obrigado, queridos seguidores que, com paciência, acompanharam o término da história. Continuem lendo, comentando e seguindo.
26/07/2010
Como vai o seu cu? ( Parte II/III)
Madre Teresa, atendimento de urgência. Sentado meio de lado, esperei até ser chamado por um médico de dedos grossos. Fiquei com os olhos fixos naqueles dedos que batiam na mesa enquanto ele me perguntava o que aconteceu.
- Eu estou com uma dor... é... uma dor...é... acho que na região anal.
Ele pediu que eu abaixasse as calças até o joelho e virasse de lado. Qualquer posição já seria incômoda, mas ficar deitado de lado, com a bunda de fora, confesso que me deixou com mais dor ainda. Além da dor física, uma chacina moral pensando naqueles dedões. Mas preciso confessar, ele foi muito gentil. Apenas levantou a minha banda direita, como quem carrega um saco de arroz. Observou e foi enfático:
- Fissura anal. Vou te receitar alguns remédios e amanhã estará novo.
Mas não estava. Depois de tomar buscopan "na veia" e utilizar a medicação, no dia seguinte estava ainda mais imóvel. Uma estátua com dor no cu. Fui obrigado a recorrer a outros médicos, especialistas no rabo alheio, os proctologistas. O que faz alguém virar proctologista? Imagino que seja algo sádico se divertir com o cu dos outros. Ninguém vai ao proctologista para deixar o cu mais bonito, deixar a pele da região mais hidratada ou fazer uma plástica. As pessoas só recorrem a esses especialistas quando estão com o cu doendo. E quando chega esse momento eles se divertem. Cutucam, cortam e, no fundo, literalmente, devem rir demais por cutucar o orgulho alheio.
Chegando ao outro hospital precisei de uma cadeira de rodas, porque não conseguia andar. Passeei de cadeirinha e tive prioridade de atendimento. Pois é, pelo menos no hospital eles sabiam a importância que tinha o meu cu! Relatei a história ao meu novo médico, de dedos grossos e unhas em crescimento. Ele foi frio e insensível.
- Por favor, fique de quatro e empine o seu quadril.
Por um momento eu pensei em sair correndo, reclamar da vida, xingar. Mas eu mal conseguia me mover. Aceitei. Pomada anestésica, Gilette, luva de borracha e um dedo. Trocaria cinco chutes no saco por aquela dor e aquela humilhação. Cutuca aqui, ali e, na parte superior esquerda ele parou, pegou e disse baixinho “achei”.
No momento que ele encontrou o problema entrou na sala um outro médico. Olha aqui, acho que temos um abscesso. O outro médico, sem o menor contrangimento colocou a luva também e sem perguntar o meu nome, me chamar para jantar ou perguntar se gosto de cinema, repetiu o procedimento do médico anterior. Humilhação em dobro, dor em dobro.
- Pronto, pode descer.
Desci da mesa minúsculo e cabisbaixo, mas com a certeza que tomaria alguns poucos remédios e tudo estaria prontamente solucionado.
- Veja bem, você tem um abscesso anal em estágio avançado e precisa fazer uma cirurgia.
Sem chance, pensei. Mas mudei de ideia na próxima frase do masoquista de jaleco.
- Se você não operar ainda hoje, você pode ter necrose do seu escroto.
Em síntese. Ou eu entrava na faca ou perderia o meu saco. Aceitei prontamente, sem orgulho. Antes uma cutucada no fiofó que perder o saco.
Comentário: meu orgulho masculino quase me fez desistir da parte II, mas como já comecei a contar vou terminar.
- Eu estou com uma dor... é... uma dor...é... acho que na região anal.
Ele pediu que eu abaixasse as calças até o joelho e virasse de lado. Qualquer posição já seria incômoda, mas ficar deitado de lado, com a bunda de fora, confesso que me deixou com mais dor ainda. Além da dor física, uma chacina moral pensando naqueles dedões. Mas preciso confessar, ele foi muito gentil. Apenas levantou a minha banda direita, como quem carrega um saco de arroz. Observou e foi enfático:
- Fissura anal. Vou te receitar alguns remédios e amanhã estará novo.
Mas não estava. Depois de tomar buscopan "na veia" e utilizar a medicação, no dia seguinte estava ainda mais imóvel. Uma estátua com dor no cu. Fui obrigado a recorrer a outros médicos, especialistas no rabo alheio, os proctologistas. O que faz alguém virar proctologista? Imagino que seja algo sádico se divertir com o cu dos outros. Ninguém vai ao proctologista para deixar o cu mais bonito, deixar a pele da região mais hidratada ou fazer uma plástica. As pessoas só recorrem a esses especialistas quando estão com o cu doendo. E quando chega esse momento eles se divertem. Cutucam, cortam e, no fundo, literalmente, devem rir demais por cutucar o orgulho alheio.
Chegando ao outro hospital precisei de uma cadeira de rodas, porque não conseguia andar. Passeei de cadeirinha e tive prioridade de atendimento. Pois é, pelo menos no hospital eles sabiam a importância que tinha o meu cu! Relatei a história ao meu novo médico, de dedos grossos e unhas em crescimento. Ele foi frio e insensível.
- Por favor, fique de quatro e empine o seu quadril.
Por um momento eu pensei em sair correndo, reclamar da vida, xingar. Mas eu mal conseguia me mover. Aceitei. Pomada anestésica, Gilette, luva de borracha e um dedo. Trocaria cinco chutes no saco por aquela dor e aquela humilhação. Cutuca aqui, ali e, na parte superior esquerda ele parou, pegou e disse baixinho “achei”.
No momento que ele encontrou o problema entrou na sala um outro médico. Olha aqui, acho que temos um abscesso. O outro médico, sem o menor contrangimento colocou a luva também e sem perguntar o meu nome, me chamar para jantar ou perguntar se gosto de cinema, repetiu o procedimento do médico anterior. Humilhação em dobro, dor em dobro.
- Pronto, pode descer.
Desci da mesa minúsculo e cabisbaixo, mas com a certeza que tomaria alguns poucos remédios e tudo estaria prontamente solucionado.
- Veja bem, você tem um abscesso anal em estágio avançado e precisa fazer uma cirurgia.
Sem chance, pensei. Mas mudei de ideia na próxima frase do masoquista de jaleco.
- Se você não operar ainda hoje, você pode ter necrose do seu escroto.
Em síntese. Ou eu entrava na faca ou perderia o meu saco. Aceitei prontamente, sem orgulho. Antes uma cutucada no fiofó que perder o saco.
Comentário: meu orgulho masculino quase me fez desistir da parte II, mas como já comecei a contar vou terminar.
23/07/2010
Como vai o seu cu? (Parte I)
O meu agora vai muito bem, obrigado. Mas preciso confessar, já tive problemas.Você já riu de mim quando eu disse que era mulher de malandro e agora vai rir do meu rabo? Caro leitor, não sou nenhum otário, mas é que resolvi escrever neste blog para contar minha história. Posso? Você pode nunca ter tido problemas anais, mas duvido que nunca tenha olhado o próprio boró no espelho. Se você tem problemas em pensar no cu dos outros pare de ler este texto.
Tudo aconteceu em 2002. Estava em um bar, no bairro Coração Eucarístico, quando o fenômeno começou. Imagine a situação: você está feliz, conversando e de repente era como um caroço de manga rosa estivesse lá, deitadinho, de braços cruzados, só esperando o seu desespero. Minha reação imediata foi correr para casa, para me livrar daquele problema.
Sentei no vaso até as veias da testa saltarem e nada. Depois de uma batalha, descobri: o intruso era o meu próprio cu, um grande e inchado cu. Fiquei preocupadíssimo com o meu brioco, mas resolvi aceitar o problema como algo passageiro e levar a minha vida normalmente. Tem gente que não tem o braço ou a perna e vive normalmente, por que eu não viria normalmente sem o meu cu?
No dia seguinte a dor se manifestava de uma maneira ainda mais incisiva, mas tentei ignorá-la. Sabe aquele papo que se você controlar o seu cérebro tudo se resolve e a dor passa? Pois é. Não foi o meu caso. Fui assistir ao show de hardcore de um velho amigo, no Matriz, mas fui obrigado a ficar em pé, com as nádegas apertadas e suando no tempo que consegui permanecer no estabelecimento. Corri para casa e depois de muito custo dormi...
No dia seguinte, ao acordar, não conseguia me mexer. Exagero? Então tá, bonitão. É porque o cu não era seu. Durante muito tempo fiquei olhando para o teto, já que não conseguia me mover e finalmente enxerguei o valor do meu fiofó. Ele sempre ficou ali, quietinho. Mas quando ele começa a doer você está fudido. Como ele fica no meio do corpo, não dá para mexer a coluna, as pernas e nem os braços. Tossir ou espirrar? Sem chance.
E assim fiquei, até resolver ir ao hospital para resolver o problema.
Tudo aconteceu em 2002. Estava em um bar, no bairro Coração Eucarístico, quando o fenômeno começou. Imagine a situação: você está feliz, conversando e de repente era como um caroço de manga rosa estivesse lá, deitadinho, de braços cruzados, só esperando o seu desespero. Minha reação imediata foi correr para casa, para me livrar daquele problema.
Sentei no vaso até as veias da testa saltarem e nada. Depois de uma batalha, descobri: o intruso era o meu próprio cu, um grande e inchado cu. Fiquei preocupadíssimo com o meu brioco, mas resolvi aceitar o problema como algo passageiro e levar a minha vida normalmente. Tem gente que não tem o braço ou a perna e vive normalmente, por que eu não viria normalmente sem o meu cu?
No dia seguinte a dor se manifestava de uma maneira ainda mais incisiva, mas tentei ignorá-la. Sabe aquele papo que se você controlar o seu cérebro tudo se resolve e a dor passa? Pois é. Não foi o meu caso. Fui assistir ao show de hardcore de um velho amigo, no Matriz, mas fui obrigado a ficar em pé, com as nádegas apertadas e suando no tempo que consegui permanecer no estabelecimento. Corri para casa e depois de muito custo dormi...
No dia seguinte, ao acordar, não conseguia me mexer. Exagero? Então tá, bonitão. É porque o cu não era seu. Durante muito tempo fiquei olhando para o teto, já que não conseguia me mover e finalmente enxerguei o valor do meu fiofó. Ele sempre ficou ali, quietinho. Mas quando ele começa a doer você está fudido. Como ele fica no meio do corpo, não dá para mexer a coluna, as pernas e nem os braços. Tossir ou espirrar? Sem chance.
E assim fiquei, até resolver ir ao hospital para resolver o problema.
Reencontro
Você bebeu a vida em goladas muito grandes, quase amigo. Não fumou um cigarro, fumou um maço. Não bebeu uma dose de vodca, bebeu a garrafa. Não fez sexo, fez logo um filho. Pulou na piscina, no frio. Se molhou, e gostou.
Bicho,por que você não foi mais devagar? Às vezes o melhor é sambar só no miudinho, curtir cada detalhe, ir devegar. Nem deu tempo da gente virar amigo de verdade, que pena. Eu ia tentar te ensinar, meu caro, que a vida é muito mais degustar do que se embebedar.
Aí você ia me falar que eu também me esbaldo. Mas quem não merece de vez em quando se jogar na lama, na piscina gelada ou beber além da conta? Mas para várias coisas a gente tem que ir devagarinho. Caro quase amigo,você foi rápido demais.
Olha só, eu deveria ter te falado que, uma hora ou outra, você ia ter alguma coisa para te segurar, uma hora alguma coisa ia te parar, por mais doloroso que tivesse sido. Mas não deu tempo da gente ser amigo, amigo de verdade. Não deu tempo de te ver chorando, não deu tempo de conhecer sua mãe, seu pai, ou sua filha (o).
Não deu tempo de dar uma volta de moto, não deu tempo de muita coisa. Meu caro quase amigo, se você bebe a vida em goles tão grandes ela acaba rapidinho. Mas será que ela não foi tão gostosa quanto se tivesse degustado cada momento?
A velocidade era muito maior do que deveria, como sempre. Infelizmente, de alguma maneira tudo parou e acabou (?) Que pena, não deu tempo de tentar te ensinar ( e talvez até aprender) a viver, muitas vezes, bem devagarinho...
Bicho,por que você não foi mais devagar? Às vezes o melhor é sambar só no miudinho, curtir cada detalhe, ir devegar. Nem deu tempo da gente virar amigo de verdade, que pena. Eu ia tentar te ensinar, meu caro, que a vida é muito mais degustar do que se embebedar.
Aí você ia me falar que eu também me esbaldo. Mas quem não merece de vez em quando se jogar na lama, na piscina gelada ou beber além da conta? Mas para várias coisas a gente tem que ir devagarinho. Caro quase amigo,você foi rápido demais.
Olha só, eu deveria ter te falado que, uma hora ou outra, você ia ter alguma coisa para te segurar, uma hora alguma coisa ia te parar, por mais doloroso que tivesse sido. Mas não deu tempo da gente ser amigo, amigo de verdade. Não deu tempo de te ver chorando, não deu tempo de conhecer sua mãe, seu pai, ou sua filha (o).
Não deu tempo de dar uma volta de moto, não deu tempo de muita coisa. Meu caro quase amigo, se você bebe a vida em goles tão grandes ela acaba rapidinho. Mas será que ela não foi tão gostosa quanto se tivesse degustado cada momento?
A velocidade era muito maior do que deveria, como sempre. Infelizmente, de alguma maneira tudo parou e acabou (?) Que pena, não deu tempo de tentar te ensinar ( e talvez até aprender) a viver, muitas vezes, bem devagarinho...
21/07/2010
Ho-mem e Mulher
HOMEM
Lavou o rosto com a água que jorrava pela pia como o tempo. Cinquenta anos. Gerente de uma multinacional, bem sucedido, bem vestido. Trabalho, viagens e dois filhos reconhecidos, só dois. Amor para ELE é cuidar, que acaba sendo o mesmo que pagar boas escolas para os filhos, comprar roupas para a mulher e um colchão novo. Sente-se um homem com “agá” maiúsculo. Sente que é maiúsculo. É visto assim pelas mulheres também. Tem uma, reconhecida.
Veste a roupa bem passada, atende o celular enquanto se arruma. Vai viajar. Contou que resolveria problemas de última hora no Rio de Janeiro, mas a passagem que estava na mala era para São Paulo. Tinha uma mulher, reconhecida. Entrou no carro orgulhoso. Era um homem, casado com Zenaide.
MEM
Lavou o rosto com a água que jorrava pela pia como o tempo. Cinquenta anos. Escritor e professor. Não ligou o chuveiro. Esperava Zenaide se arrumar para que tomassem banho juntos. Como conhecia o esquecimento do marido, ela foi buscar a toalha, o shampoo e o sabonete. Tinham dois filhos, que já estavam na escola. ELE acordou cedo para abraçá-los e ajudar a vestir o uniforme. Tão pequenos, mas tão grandes. O tempo jorrava como água pela pia.
De vez em quando viajava, mas preferia a tranqüilidade. Toma banho morno com ela, como gostam. Entra no carro sem orgulho, às 10 da manhã. A mulher buscaria os filhos na escola. Era um mem.
MULHER
Olhou da porta do banheiro. Ele lavava o rosto, pensativo. Foi pegar a toalha, o shampoo e o sabonete. Tinha que se esforçar, ajudar a sustentar a casa. O marido, coitado, sempre um irresponsável. Arrumou dívidas, não cuidava das finanças. Não importava se ele era amoroso ou carinhoso, não era um homem. Queria alguém que pagasse as contas sozinho, que cuidasse de tudo sozinho, que não precisasse dela, um homem.
Voltou e tomaram banho. ELE estava feliz, mas ela não queria conversar. Fechou a porta assim que o marido saiu. Pequeno, incompleto, minúsculo.
Lavou o rosto com a água que jorrava pela pia como o tempo. Cinquenta anos. Gerente de uma multinacional, bem sucedido, bem vestido. Trabalho, viagens e dois filhos reconhecidos, só dois. Amor para ELE é cuidar, que acaba sendo o mesmo que pagar boas escolas para os filhos, comprar roupas para a mulher e um colchão novo. Sente-se um homem com “agá” maiúsculo. Sente que é maiúsculo. É visto assim pelas mulheres também. Tem uma, reconhecida.
Veste a roupa bem passada, atende o celular enquanto se arruma. Vai viajar. Contou que resolveria problemas de última hora no Rio de Janeiro, mas a passagem que estava na mala era para São Paulo. Tinha uma mulher, reconhecida. Entrou no carro orgulhoso. Era um homem, casado com Zenaide.
MEM
Lavou o rosto com a água que jorrava pela pia como o tempo. Cinquenta anos. Escritor e professor. Não ligou o chuveiro. Esperava Zenaide se arrumar para que tomassem banho juntos. Como conhecia o esquecimento do marido, ela foi buscar a toalha, o shampoo e o sabonete. Tinham dois filhos, que já estavam na escola. ELE acordou cedo para abraçá-los e ajudar a vestir o uniforme. Tão pequenos, mas tão grandes. O tempo jorrava como água pela pia.
De vez em quando viajava, mas preferia a tranqüilidade. Toma banho morno com ela, como gostam. Entra no carro sem orgulho, às 10 da manhã. A mulher buscaria os filhos na escola. Era um mem.
MULHER
Olhou da porta do banheiro. Ele lavava o rosto, pensativo. Foi pegar a toalha, o shampoo e o sabonete. Tinha que se esforçar, ajudar a sustentar a casa. O marido, coitado, sempre um irresponsável. Arrumou dívidas, não cuidava das finanças. Não importava se ele era amoroso ou carinhoso, não era um homem. Queria alguém que pagasse as contas sozinho, que cuidasse de tudo sozinho, que não precisasse dela, um homem.
Voltou e tomaram banho. ELE estava feliz, mas ela não queria conversar. Fechou a porta assim que o marido saiu. Pequeno, incompleto, minúsculo.
22/06/2010
Convite
Senhor Mascarado, estou indo te buscar. Vou te colocar no meu Fuscão bege e vou te levar. Vou esvaziar o seu bolso e fazer seu coração bater com suavidade. Vou te mostrar o que você já sabe: dinheiro não serve para nada, ou quase nada. Mas olha aqui, só venha se quiser...
E mais, se você se comportar eu vou te mostrar que você não quer ser homenageado, vou mostrar que o reconhecimento dos outros não importa tanto assim e que você precisa mesmo é ser feliz. Olha só, o lance da vida é você contra você mesmo. Vem comigo?
Eu vou te dar você de volta. Pode pegar. Mas eu vou pegar o seu dinheiro, eu vou pegar a sua ambição e eu vou pegar as suas dívidas. Vou te tirar do molde, te desajustar e aí sim você vai ver que o dinheiro, coitado, não serve para quase nada.
Mas você ainda vai trabalhar muito e vai ter filhos. Vai vê-los crescer, vai levá-los ao futebol, natação e basquete. Vai deixá-los sujos, vai brincar com eles, vai cair, mas pelo menos eu te garanto: você vai se levantar.
Olha aqui, pode ficar, essa pode ser a sua nova vida. Se não quiser eu vou embora, te deixo aí, com sua máscara. Aí você vai ficar rico, não vai ver seus filhos crescerem e nem vai ver o seu infarto. Nem vai ver a sua mulher, nem o amante dela. Não vai ouvir aquela música que você gosta, não vai tocar bateria sem saber. Ah, você não vai ver também a sua felicidade, que não vai caber na sua carteira.
Você não vai ter bicho de pé, você não vai ter amigos. Mas você vai ter vários admiradores, vai ganhar abraços de gravata, vai ganhar chutes em sola de couro. Vai ganhar uma fazenda ou um boi, com chifres. Se quiser, fica aí, sentado.
Mas passa pra cá aquelas lembranças. Dá aqui o seu giz, passa pra cá o seu apagador. Passa pra cá o seu sorriso, seu viado!
Enquanto isso eu rasgo o céu com o meu fuscão bege, na escuridão.
E mais, se você se comportar eu vou te mostrar que você não quer ser homenageado, vou mostrar que o reconhecimento dos outros não importa tanto assim e que você precisa mesmo é ser feliz. Olha só, o lance da vida é você contra você mesmo. Vem comigo?
Eu vou te dar você de volta. Pode pegar. Mas eu vou pegar o seu dinheiro, eu vou pegar a sua ambição e eu vou pegar as suas dívidas. Vou te tirar do molde, te desajustar e aí sim você vai ver que o dinheiro, coitado, não serve para quase nada.
Mas você ainda vai trabalhar muito e vai ter filhos. Vai vê-los crescer, vai levá-los ao futebol, natação e basquete. Vai deixá-los sujos, vai brincar com eles, vai cair, mas pelo menos eu te garanto: você vai se levantar.
Olha aqui, pode ficar, essa pode ser a sua nova vida. Se não quiser eu vou embora, te deixo aí, com sua máscara. Aí você vai ficar rico, não vai ver seus filhos crescerem e nem vai ver o seu infarto. Nem vai ver a sua mulher, nem o amante dela. Não vai ouvir aquela música que você gosta, não vai tocar bateria sem saber. Ah, você não vai ver também a sua felicidade, que não vai caber na sua carteira.
Você não vai ter bicho de pé, você não vai ter amigos. Mas você vai ter vários admiradores, vai ganhar abraços de gravata, vai ganhar chutes em sola de couro. Vai ganhar uma fazenda ou um boi, com chifres. Se quiser, fica aí, sentado.
Mas passa pra cá aquelas lembranças. Dá aqui o seu giz, passa pra cá o seu apagador. Passa pra cá o seu sorriso, seu viado!
Enquanto isso eu rasgo o céu com o meu fuscão bege, na escuridão.
14/06/2010
Mas louco é quem me diz que não é feliz
Para ser feliz é necessário ter um parafuso a menos ou um parafuso a mais? Já conheci loucos e de certa forma sou um deles. Em diversos episódios convivi com pessoas que não “batiam bem”, mas principalmente com o Rômulo e a Conceição.
Certamente, alguns dos que me lêem agora conhecem um deles ou ambos, cada um com suas peculiaridades. O Rômulo, chamado por mim e por meus irmãos pequenos de Rômu, era uma figura sensacional. Sossegado, na dele, “viajava” sentado (na cadeira que era só dele) ria e se divertia com as situações mais triviais: um gato que se divertia com os afagos da janela, meu irmão mais velho praticando artes marciais ou simplesmente olhando para o nada. Sem dentes e nem dentadura, exibia orgulhosamente a sua gengiva para o primeiro que aparecesse, mas sempre me diziam que era um barril de pólvora. Contavam que enlouqueceu da noite para o dia, quando tentou matar o chefe, foi para um manicômio, fugiu e desde então passou a viver com a minha vó.
Ouvia histórias de que ele, certo dia, já correu atrás da minha mãe com uma faca, enquanto ela se preparava para abocanhar uma melancia. Mas, para mim, até que ele morresse, foi uma pessoa mansa, de sorriso flácido e tranquilo. Um foguete molhado. Molhado e feliz. Ele foi, inclusive, o responsável pelo o primeiro velório que presenciei, aos 11 anos. Fiquei impressionado com a boca, o nariz e ouvidos cheios de algodão, mas passou, assim como a sua presença na vida de quase todo mundo. Estava lá, deitado, tranqüilo, como se ainda estivesse viajando em sua cadeira.
Já a Conceição marcou bem mais a minha vida, pela ternura e pelo que há de mais singelo, puro e belo. A loucura dela era excesso de pureza. De tão pura e casta tinha a mania de lavar as mãos. Mas não era uma lavadinha inocente. Ela lavava a mão, o corpo e tudo que visse pela frente o dia inteiro, na tentativa de se limpar um pouco mais. Viu sujeira? Lavou a mão. Sentiu um cheiro ruim? Lavou a mão. Como conseqüência, uma pele fina, perigosa, capaz de sangrar com um olhar. E assim viveu, tentando se limpar como se fosse purificar o mundo, até morrer e aí sim conseguir largar toda a sua “sujeira”.
Hoje eu preciso um pouco da placidez e do sorriso flácido do "Rômu" ou da pureza da Conceição. Aí sim levaria de uma maneira muito melhor a vida. Para eles, que imaginaram, certamente, que passaram pela vida como um foguete molhado eu conto agora, em tom de segredo: na minha lembrança vocês estouraram, foram pirotécnicos, me mostraram uma perspectiva mais doce. Pena que foram embora assim como apareceram, bem de leve, como talvez deveria ser...
Certamente, alguns dos que me lêem agora conhecem um deles ou ambos, cada um com suas peculiaridades. O Rômulo, chamado por mim e por meus irmãos pequenos de Rômu, era uma figura sensacional. Sossegado, na dele, “viajava” sentado (na cadeira que era só dele) ria e se divertia com as situações mais triviais: um gato que se divertia com os afagos da janela, meu irmão mais velho praticando artes marciais ou simplesmente olhando para o nada. Sem dentes e nem dentadura, exibia orgulhosamente a sua gengiva para o primeiro que aparecesse, mas sempre me diziam que era um barril de pólvora. Contavam que enlouqueceu da noite para o dia, quando tentou matar o chefe, foi para um manicômio, fugiu e desde então passou a viver com a minha vó.
Ouvia histórias de que ele, certo dia, já correu atrás da minha mãe com uma faca, enquanto ela se preparava para abocanhar uma melancia. Mas, para mim, até que ele morresse, foi uma pessoa mansa, de sorriso flácido e tranquilo. Um foguete molhado. Molhado e feliz. Ele foi, inclusive, o responsável pelo o primeiro velório que presenciei, aos 11 anos. Fiquei impressionado com a boca, o nariz e ouvidos cheios de algodão, mas passou, assim como a sua presença na vida de quase todo mundo. Estava lá, deitado, tranqüilo, como se ainda estivesse viajando em sua cadeira.
Já a Conceição marcou bem mais a minha vida, pela ternura e pelo que há de mais singelo, puro e belo. A loucura dela era excesso de pureza. De tão pura e casta tinha a mania de lavar as mãos. Mas não era uma lavadinha inocente. Ela lavava a mão, o corpo e tudo que visse pela frente o dia inteiro, na tentativa de se limpar um pouco mais. Viu sujeira? Lavou a mão. Sentiu um cheiro ruim? Lavou a mão. Como conseqüência, uma pele fina, perigosa, capaz de sangrar com um olhar. E assim viveu, tentando se limpar como se fosse purificar o mundo, até morrer e aí sim conseguir largar toda a sua “sujeira”.
Hoje eu preciso um pouco da placidez e do sorriso flácido do "Rômu" ou da pureza da Conceição. Aí sim levaria de uma maneira muito melhor a vida. Para eles, que imaginaram, certamente, que passaram pela vida como um foguete molhado eu conto agora, em tom de segredo: na minha lembrança vocês estouraram, foram pirotécnicos, me mostraram uma perspectiva mais doce. Pena que foram embora assim como apareceram, bem de leve, como talvez deveria ser...
10/06/2010
Mulher de malandro
Resolvi assumir: eu sou uma mulher de malandro. Qual é o problema? Você pode ser gordo, zarolho ou feio e eu não estou rindo da sua cara. Por favor, querido leitor judiado, não ria da minha cara. Para aliviar um pouco a minha barra eu explico melhor. Eu tentei ser diferente,mas nasci assim. Acho que gosto mesmo é de apanhar, de não ser reconhecido, de ser alvo de piada. Mas e daí?
Nos últimos dias sinto falta do meu malandro. Sinto falta de ter que ficar batendo o apagador no quadro até afrouxar os parafusos e fazer com que ele quase caia na minha cabeça. Quero escrever seu samba, no quadro, com minha letra torta e escutar que estou "subindo morro". Quero muito ter que brigar, expulsar de sala, quero muito ficar rouco, perder a voz.
Ah, mas eu quero muito aquele abraço, que vinha de vez em quando, de manhã, de mansinho. Quero controlar 40 olhinhos com sono e apertados às sete horas da manhã, quero me esbaldar. Eu quero chafurdar na lama, me sujar, tomar um banho, dormir e me sujar todo de novo.
Quero rir sem você perceber daquela piada excelente que você contou, mas que eu não podia rir. Também quero rir de você, que no auge da puberdade veste a calça do lado errado porque está morrendo de sono. Quero ficar seu amigo, quero te matar. Eu quero. E de tanto querer eu já não quero mais.
Não quero ser um palhaço. Meu Deus, que associação perfeita, um palhaço! Ouvi essa comparação na minha sexta série, saída da boca de um professor de inglês, o Renato. Alguns leitores lembrarão do Renato, coitado. Professor e coordenador, professor de uma disciplina que coloca medo em poucos, era chamado de gay, tinha problemas disciplinares, mas já sabia de tudo, que era um palhaço. De tão palhaço se abriu assim para um menino de doze anos, mas que se lembra e agora entende o significado da excelente comparação.
Mas pode rir, pode conversar, pode encher o raio do meu saco. Pode me colocar no seu samba ou no seu circo pode me fazer de pandeiro ou me levar para o picadeiro, porque aqui você é quem escolhe. No fim eu vou me vingar, vou te punir, vou te dar exercício extra e vou te prender depois do horário. Vou ligar para a sua mãe, vou ligar para o seu pai e vou te dar zero. Mas faça-me o favor, um favorzão? Não esqueça do abraço. Às sete horas da manhã ele faz muita falta, uma falta do caralho.
Nos últimos dias sinto falta do meu malandro. Sinto falta de ter que ficar batendo o apagador no quadro até afrouxar os parafusos e fazer com que ele quase caia na minha cabeça. Quero escrever seu samba, no quadro, com minha letra torta e escutar que estou "subindo morro". Quero muito ter que brigar, expulsar de sala, quero muito ficar rouco, perder a voz.
Ah, mas eu quero muito aquele abraço, que vinha de vez em quando, de manhã, de mansinho. Quero controlar 40 olhinhos com sono e apertados às sete horas da manhã, quero me esbaldar. Eu quero chafurdar na lama, me sujar, tomar um banho, dormir e me sujar todo de novo.
Quero rir sem você perceber daquela piada excelente que você contou, mas que eu não podia rir. Também quero rir de você, que no auge da puberdade veste a calça do lado errado porque está morrendo de sono. Quero ficar seu amigo, quero te matar. Eu quero. E de tanto querer eu já não quero mais.
Não quero ser um palhaço. Meu Deus, que associação perfeita, um palhaço! Ouvi essa comparação na minha sexta série, saída da boca de um professor de inglês, o Renato. Alguns leitores lembrarão do Renato, coitado. Professor e coordenador, professor de uma disciplina que coloca medo em poucos, era chamado de gay, tinha problemas disciplinares, mas já sabia de tudo, que era um palhaço. De tão palhaço se abriu assim para um menino de doze anos, mas que se lembra e agora entende o significado da excelente comparação.
Mas pode rir, pode conversar, pode encher o raio do meu saco. Pode me colocar no seu samba ou no seu circo pode me fazer de pandeiro ou me levar para o picadeiro, porque aqui você é quem escolhe. No fim eu vou me vingar, vou te punir, vou te dar exercício extra e vou te prender depois do horário. Vou ligar para a sua mãe, vou ligar para o seu pai e vou te dar zero. Mas faça-me o favor, um favorzão? Não esqueça do abraço. Às sete horas da manhã ele faz muita falta, uma falta do caralho.
08/06/2010
E aí a gente cresce...
Já fui criança.E aí cresci como você, querido leitor, aos pouquinhos. Algumas lembranças dessa época, quase que por insistência, ficam. Alguns castelos de areia desabam, outros são construídos e assim a vida segue.
Já tive "janelinhas", já tive tênis do Rambo e Comandos em Ação. Queria ser bombeiro, policial e até jogador de futebol! Com o tempo ser bombeiro fica perigoso demais, a bola fica murcha e a farda não faz sentido em um mundo onde na maioria das vezes quem vence é o bandido.
Mas tudo bem, o mundo ainda oferecia diversas possibilidades. Tudo era sempre muito fácil, menos a química e a geometria, a distração e as conversas dentro de sala. E mais ou menos com essa mentalidade, um piercing na testa e outro na orelha pensei que seria facílimo virar professor de Português. Por que não? Afinal, apesar de tudo que diziam sobre a profissão tudo era sempre um exagero da imprensa. Os alunos sempre eram cordiais e os profissionais bem humorados. E é numa dessas que a gente cresce, mas continua neném.
E numa dessas faz letras, forma e dá aula. Não há nada melhor que o carinho dos alunos e não há nada pior que tantas cobranças. Mas tudo bem, a gente muda de profissão. Lembra das possibilidades?
Entre a chupeta, o computador e a caneta, o He Man deixa de ser tão legal quanto parecia, você descobre que o tênis, mesmo sendo do Rambo, um dia fura. Descobre que anarquia e trabalho são ideias opostas, descobre que não é simples ser astro do rock e que o mundo, definitivamente, não vai te amar se você não merecer.
Aí você quer escrever, você sabe que pode e que todos, inclusive você irão adorar. E aí a gente cresce...
E quando a gente fica grande mesmo a gente descobre: o melhor era ser pequeno. O melhor era o "cavalinho" que ganhava quando era gol do Galo no Mineirão. O melhor era ter a empregada como cúmplice nas travessuras infantis e esperar o pai chegar para deitar no peito dele durante o Jornal Nacional.
Por isso eu peço, Deus, insistentemente, não me deixe mais crescer e me devolva meus Comandos em Ação, porque a vida, aos vinte e poucos, tem gosto de Beatles com café.
Já tive "janelinhas", já tive tênis do Rambo e Comandos em Ação. Queria ser bombeiro, policial e até jogador de futebol! Com o tempo ser bombeiro fica perigoso demais, a bola fica murcha e a farda não faz sentido em um mundo onde na maioria das vezes quem vence é o bandido.
Mas tudo bem, o mundo ainda oferecia diversas possibilidades. Tudo era sempre muito fácil, menos a química e a geometria, a distração e as conversas dentro de sala. E mais ou menos com essa mentalidade, um piercing na testa e outro na orelha pensei que seria facílimo virar professor de Português. Por que não? Afinal, apesar de tudo que diziam sobre a profissão tudo era sempre um exagero da imprensa. Os alunos sempre eram cordiais e os profissionais bem humorados. E é numa dessas que a gente cresce, mas continua neném.
E numa dessas faz letras, forma e dá aula. Não há nada melhor que o carinho dos alunos e não há nada pior que tantas cobranças. Mas tudo bem, a gente muda de profissão. Lembra das possibilidades?
Entre a chupeta, o computador e a caneta, o He Man deixa de ser tão legal quanto parecia, você descobre que o tênis, mesmo sendo do Rambo, um dia fura. Descobre que anarquia e trabalho são ideias opostas, descobre que não é simples ser astro do rock e que o mundo, definitivamente, não vai te amar se você não merecer.
Aí você quer escrever, você sabe que pode e que todos, inclusive você irão adorar. E aí a gente cresce...
E quando a gente fica grande mesmo a gente descobre: o melhor era ser pequeno. O melhor era o "cavalinho" que ganhava quando era gol do Galo no Mineirão. O melhor era ter a empregada como cúmplice nas travessuras infantis e esperar o pai chegar para deitar no peito dele durante o Jornal Nacional.
Por isso eu peço, Deus, insistentemente, não me deixe mais crescer e me devolva meus Comandos em Ação, porque a vida, aos vinte e poucos, tem gosto de Beatles com café.
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