22/06/2010

Convite

Senhor Mascarado, estou indo te buscar. Vou te colocar no meu Fuscão bege e vou te levar. Vou esvaziar o seu bolso e fazer seu coração bater com suavidade. Vou te mostrar o que você já sabe: dinheiro não serve para nada, ou quase nada. Mas olha aqui, só venha se quiser...

E mais, se você se comportar eu vou te mostrar que você não quer ser homenageado, vou mostrar que o reconhecimento dos outros não importa tanto assim e que você precisa mesmo é ser feliz. Olha só, o lance da vida é você contra você mesmo. Vem comigo?

Eu vou te dar você de volta. Pode pegar. Mas eu vou pegar o seu dinheiro, eu vou pegar a sua ambição e eu vou pegar as suas dívidas. Vou te tirar do molde, te desajustar e aí sim você vai ver que o dinheiro, coitado, não serve para quase nada.
Mas você ainda vai trabalhar muito e vai ter filhos. Vai vê-los crescer, vai levá-los ao futebol, natação e basquete. Vai deixá-los sujos, vai brincar com eles, vai cair, mas pelo menos eu te garanto: você vai se levantar.

Olha aqui, pode ficar, essa pode ser a sua nova vida. Se não quiser eu vou embora, te deixo aí, com sua máscara. Aí você vai ficar rico, não vai ver seus filhos crescerem e nem vai ver o seu infarto. Nem vai ver a sua mulher, nem o amante dela. Não vai ouvir aquela música que você gosta, não vai tocar bateria sem saber. Ah, você não vai ver também a sua felicidade, que não vai caber na sua carteira.

Você não vai ter bicho de pé, você não vai ter amigos. Mas você vai ter vários admiradores, vai ganhar abraços de gravata, vai ganhar chutes em sola de couro. Vai ganhar uma fazenda ou um boi, com chifres. Se quiser, fica aí, sentado.

Mas passa pra cá aquelas lembranças. Dá aqui o seu giz, passa pra cá o seu apagador. Passa pra cá o seu sorriso, seu viado!

Enquanto isso eu rasgo o céu com o meu fuscão bege, na escuridão.

14/06/2010

Mas louco é quem me diz que não é feliz

Para ser feliz é necessário ter um parafuso a menos ou um parafuso a mais? Já conheci loucos e de certa forma sou um deles. Em diversos episódios convivi com pessoas que não “batiam bem”, mas principalmente com o Rômulo e a Conceição.

Certamente, alguns dos que me lêem agora conhecem um deles ou ambos, cada um com suas peculiaridades. O Rômulo, chamado por mim e por meus irmãos pequenos de Rômu, era uma figura sensacional. Sossegado, na dele, “viajava” sentado (na cadeira que era só dele) ria e se divertia com as situações mais triviais: um gato que se divertia com os afagos da janela, meu irmão mais velho praticando artes marciais ou simplesmente olhando para o nada. Sem dentes e nem dentadura, exibia orgulhosamente a sua gengiva para o primeiro que aparecesse, mas sempre me diziam que era um barril de pólvora. Contavam que enlouqueceu da noite para o dia, quando tentou matar o chefe, foi para um manicômio, fugiu e desde então passou a viver com a minha vó.

Ouvia histórias de que ele, certo dia, já correu atrás da minha mãe com uma faca, enquanto ela se preparava para abocanhar uma melancia. Mas, para mim, até que ele morresse, foi uma pessoa mansa, de sorriso flácido e tranquilo. Um foguete molhado. Molhado e feliz. Ele foi, inclusive, o responsável pelo o primeiro velório que presenciei, aos 11 anos. Fiquei impressionado com a boca, o nariz e ouvidos cheios de algodão, mas passou, assim como a sua presença na vida de quase todo mundo. Estava lá, deitado, tranqüilo, como se ainda estivesse viajando em sua cadeira.

Já a Conceição marcou bem mais a minha vida, pela ternura e pelo que há de mais singelo, puro e belo. A loucura dela era excesso de pureza. De tão pura e casta tinha a mania de lavar as mãos. Mas não era uma lavadinha inocente. Ela lavava a mão, o corpo e tudo que visse pela frente o dia inteiro, na tentativa de se limpar um pouco mais. Viu sujeira? Lavou a mão. Sentiu um cheiro ruim? Lavou a mão. Como conseqüência, uma pele fina, perigosa, capaz de sangrar com um olhar. E assim viveu, tentando se limpar como se fosse purificar o mundo, até morrer e aí sim conseguir largar toda a sua “sujeira”.

Hoje eu preciso um pouco da placidez e do sorriso flácido do "Rômu" ou da pureza da Conceição. Aí sim levaria de uma maneira muito melhor a vida. Para eles, que imaginaram, certamente, que passaram pela vida como um foguete molhado eu conto agora, em tom de segredo: na minha lembrança vocês estouraram, foram pirotécnicos, me mostraram uma perspectiva mais doce. Pena que foram embora assim como apareceram, bem de leve, como talvez deveria ser...

10/06/2010

Mulher de malandro

Resolvi assumir: eu sou uma mulher de malandro. Qual é o problema? Você pode ser gordo, zarolho ou feio e eu não estou rindo da sua cara. Por favor, querido leitor judiado, não ria da minha cara. Para aliviar um pouco a minha barra eu explico melhor. Eu tentei ser diferente,mas nasci assim. Acho que gosto mesmo é de apanhar, de não ser reconhecido, de ser alvo de piada. Mas e daí?

Nos últimos dias sinto falta do meu malandro. Sinto falta de ter que ficar batendo o apagador no quadro até afrouxar os parafusos e fazer com que ele quase caia na minha cabeça. Quero escrever seu samba, no quadro, com minha letra torta e escutar que estou "subindo morro". Quero muito ter que brigar, expulsar de sala, quero muito ficar rouco, perder a voz.

Ah, mas eu quero muito aquele abraço, que vinha de vez em quando, de manhã, de mansinho. Quero controlar 40 olhinhos com sono e apertados às sete horas da manhã, quero me esbaldar. Eu quero chafurdar na lama, me sujar, tomar um banho, dormir e me sujar todo de novo.

Quero rir sem você perceber daquela piada excelente que você contou, mas que eu não podia rir. Também quero rir de você, que no auge da puberdade veste a calça do lado errado porque está morrendo de sono. Quero ficar seu amigo, quero te matar. Eu quero. E de tanto querer eu já não quero mais.

Não quero ser um palhaço. Meu Deus, que associação perfeita, um palhaço! Ouvi essa comparação na minha sexta série, saída da boca de um professor de inglês, o Renato. Alguns leitores lembrarão do Renato, coitado. Professor e coordenador, professor de uma disciplina que coloca medo em poucos, era chamado de gay, tinha problemas disciplinares, mas já sabia de tudo, que era um palhaço. De tão palhaço se abriu assim para um menino de doze anos, mas que se lembra e agora entende o significado da excelente comparação.

Mas pode rir, pode conversar, pode encher o raio do meu saco. Pode me colocar no seu samba ou no seu circo pode me fazer de pandeiro ou me levar para o picadeiro, porque aqui você é quem escolhe. No fim eu vou me vingar, vou te punir, vou te dar exercício extra e vou te prender depois do horário. Vou ligar para a sua mãe, vou ligar para o seu pai e vou te dar zero. Mas faça-me o favor, um favorzão? Não esqueça do abraço. Às sete horas da manhã ele faz muita falta, uma falta do caralho.

08/06/2010

E aí a gente cresce...

Já fui criança.E aí cresci como você, querido leitor, aos pouquinhos. Algumas lembranças dessa época, quase que por insistência, ficam. Alguns castelos de areia desabam, outros são construídos e assim a vida segue.

Já tive "janelinhas", já tive tênis do Rambo e Comandos em Ação. Queria ser bombeiro, policial e até jogador de futebol! Com o tempo ser bombeiro fica perigoso demais, a bola fica murcha e a farda não faz sentido em um mundo onde na maioria das vezes quem vence é o bandido.

Mas tudo bem, o mundo ainda oferecia diversas possibilidades. Tudo era sempre muito fácil, menos a química e a geometria, a distração e as conversas dentro de sala. E mais ou menos com essa mentalidade, um piercing na testa e outro na orelha pensei que seria facílimo virar professor de Português. Por que não? Afinal, apesar de tudo que diziam sobre a profissão tudo era sempre um exagero da imprensa. Os alunos sempre eram cordiais e os profissionais bem humorados. E é numa dessas que a gente cresce, mas continua neném.

E numa dessas faz letras, forma e dá aula. Não há nada melhor que o carinho dos alunos e não há nada pior que tantas cobranças. Mas tudo bem, a gente muda de profissão. Lembra das possibilidades?

Entre a chupeta, o computador e a caneta, o He Man deixa de ser tão legal quanto parecia, você descobre que o tênis, mesmo sendo do Rambo, um dia fura. Descobre que anarquia e trabalho são ideias opostas, descobre que não é simples ser astro do rock e que o mundo, definitivamente, não vai te amar se você não merecer.

Aí você quer escrever, você sabe que pode e que todos, inclusive você irão adorar. E aí a gente cresce...

E quando a gente fica grande mesmo a gente descobre: o melhor era ser pequeno. O melhor era o "cavalinho" que ganhava quando era gol do Galo no Mineirão. O melhor era ter a empregada como cúmplice nas travessuras infantis e esperar o pai chegar para deitar no peito dele durante o Jornal Nacional.

Por isso eu peço, Deus, insistentemente, não me deixe mais crescer e me devolva meus Comandos em Ação, porque a vida, aos vinte e poucos, tem gosto de Beatles com café.